Este país tem uma praga,
que só atrasa nossa vida:
corrupção desenfreada,
ainda pouco combatida
Suborno, bola, propina,
cervejinha, mensalão.
Muitos nomes pruma sina:
dinheiro pelo ladrão
Tal vergonhoso legado,
deformação do país,
precisa ser extirpado,
cortado pela raiz
E pra começar, sem medo,
a dar cabo a essa mudança,
na ferida ponho o dedo
e não cedo a pajelança
A praga vou te mostrar
de alto a baixo, sem pudor.
Melhor, pra não vomitar,
por no nariz um pregador
Comecemos pelo alto
vendo a locupletação
de quem faz banquete lauto
com dinheiro da nação
Os políticos mundiços
nos períodos de campanha,
já selam compromisso,
fazem jogada e artimanha
Candidatos rumo à glória
posam de santos no andor
abusam de sua oratória
e da inocência do eleitor
Por trás da campanha rica
sempre há gente interessada
em fazer da vida pública
uma extensão da privada
Os eleitos roem o erário
com uma fome de saúva.
Ganham baita de um salário
e ainda roubam da Viúva
Há quem venda o mandato
como em bolsa de valores.
Prometa emenda, contrato
e uma série de favores
Nessa cleptocracia
se dá bem o que fica atento
ao comprar a nota fria
ou fraudar o orçamento
E evita mesquinharia
ao dar cargo a cupincha
pois quem fica sem boquinha
pode iniciar uma rixa
Só escolado em lero-lero
vira dono de castelos,
reina sobre o baixo clero
e pros bobos dá farelos
A quantidade de opções
de violação de conduta
é maior que as posições
descritas no Kama Sutra
Mas há quem diga: “não é mansa
vida de parlamentar
(que tira doce de criança
e sua merenda escolar)”
“O mandato não é finta
tem que dar ponto com nó
(trabalha de terça a quinta
e ganha auxílio-paletó)”
“O homem se desdobra
pra cumprir bem sua função”
(para liberar uma obra,
exige boa comissão)
Vista grossa dos isentos
faz a festa do empreiteiro
que não atrasa pagamento
com suas malas de dinheiro
Se um se vende, outro lhe paga.
Vejamos agora então
quem alimenta essa praga
do outro lado do balcão
Se na Câmara e Senado
essa peste tem abrigo
roubar no setor privado
é outro crime sem castigo
A arte do empresariado
é a de não fazer alarde
pois com bom advogado
não faz falta a imunidade
Quando tem licitação
ninguém vence mais no grito
o cartel é a condição
para ninguém ficar aflito
Há outro modo bem plausível
para garantir seus pleitos.
Jato e carro conversível
fidelizam os prefeitos
O edital encomendado
oculta as cartas marcadas,
e o suborno parcelado
por obras superfaturadas
Pagamento de imposto
é outro mal remediado.
Pra que não haja desgosto
o fiscal já vem comprado
No fim um contador mui hábil
no balanço dá um jeito
faz uma fraude contábil
pra ninguém botar defeito
Quando algo dá errado,
ele, assim que “a casa cai”,
chama o amigo magistrado
e o habeas corpus logo sai
Lá na França essa baderna
terminava em guilhotina.
Mas aqui quem a condena
amanhã paga propina
O hipócrita que age errado
culpa a Era colonial.
Faz do roubo um bem tombado,
patrimônio cultural
“Se Portugal fez o caminho
que no Brasil virou ciência
eu posso dar o meu jeitinho
sem que me pese a consciência”
É um pensamento de traça
que não percebe que é venal
qualquer buraco que se faça
no tecido social
Há um outro lado funesto
da moeda que o ralo come.
É que o ato desonesto
traz doença, morte e fome
Um centavo que é tirado
de uma compra de ambulância
pode até ser o atestado
de óbito de uma criança
E alguém que por circunstância
desvia a verba da comida
não merece a mesma instância
a qual julga um genocida?
Ante a falta de caráter
que demonstra essa gente
até quando vais manter
o teu silêncio de inocente?
Se em cordel ou na TV
corrupção te causa asco,
lembre: somente você
pode ser dela o carrasco
Tens aqui uns bons conselhos
pra ganharmos esta luta.
É preciso ser pentelho
contra essa gente fajuta
Basta de ser cordial
com quem nada em mar de lama
mostre o quanto és radical
no combate dessa trama
A reforma dos costumes
da cultura e da política
muito mais do que tapumes
exige argamassa crítica
Mude o seu pensamento,
não roube ou deixe roubar.
Use todo instrumento
que houver pra fiscalizar
Recuse bens imorais
de ficha suja criminal,
creia: o voto vale mais
que dentadura ou cereal
Ao votar, tenha critério
estude cada conduta
pra separar quem é sério
de quem é filho da mãe
Sua responsabilidade
não se acaba na eleição.
Não dê paz à autoridade,
mantenha ela sob pressão
Acompanhe bem de perto
os atos dos três poderes.
De quem se acha muito esperto
cobre que cumpra os deveres
Esteja sempre informado
por rádio, site e jornal.
Leia até o que é publicado
no Diário Oficial
Se o governo compra caro
o que é barato, na esquina,
apure bem o seu faro:
pode ali haver propina
No elogio e na crítica
desconfie da imprensa
a motivação política
é maior do que se pensa
Não se preste a ser laranja,
fantasma, homem da mala.
Se a PF lhe tira a canja
o seu nome vai pra vala
Se o vizinho ficou rico
sem agir com honestidade,
vá ao Ministério Público
relatar a improbidade
No controle social
ataque nas várias pontas:
Conselho Municipal
e no Tribunal de Contas
Vale até se filiar
a legenda partidária
se o estatuto lhe agradar
e não for ninho de pária
Se nada surte efeito
não se faça de rogado
exerça o seu direito,
faça abaixo assinado
Só não pode se omitir
dizer “são todos iguais”
pois você há de convir
que se iguala aos demais
Que a gente é valente
várias vezes demonstramos:
derrubamos presidente
e a ficha limpa aprovamos
A cidadania ativa
é o antídoto da praga.
A pessoa que se esquiva
perpetua essa chaga
Pra quem age como rato
não existe pior algoz,
nem maior pedra no sapato,
do que o cidadão com voz